Como você materna?
Talvez essa resposta não venha apenas daquilo que uma mulher sente ou escolhe individualmente, mas também de tudo o que atravessa a sua experiência de maternar.
A forma como você materna passa pelas suas vivências, pela geração em que cresceu, pelas redes de apoio que teve ou não teve, pelos medos, aprendizados e pelas expectativas que a sociedade construiu sobre o que uma mãe “deveria” ser.
Maternar pode estar muito mais ligado à possibilidade de conseguir se escutar em meio a tantos ruídos.
Entre excesso de referências e a tentativa de se escutar
E se escutar é ainda mais difícil hoje, não é? Entre redes sociais, excesso de informação e comparações constantes, Thef (26 anos, mãe geração Z) descreve a sensação de estar sempre tentando alcançar um ideal impossível.
“Hoje vemos a maternidade ‘perfeita’ das outras pessoas o tempo todo e não se comparar é extremamente difícil.”
Mas, em meio a tantos conteúdos, opiniões e influenciadores, Sofia, sua filha de 1 ano, acaba sendo sua maior influênciadora.
“O aprendizado me marca muito. Parece que todo dia aprendo algo novo sobre mim e sobre ela.”
Na fala de Thef, existe algo muito simbólico da maternidade geração Z: ao mesmo tempo em que são atravessadas pela pressão de performar perfeição, descobrem, na relação real com os filhos, formas mais humanas e possíveis de maternar. Em meio ao excesso de vozes dizendo como uma mãe deveria ser, são justamente os vínculos reais que ajudam uma mulher a voltar a se escutar.
A Escuta como construção de vínculo
Bruna (33 anos, casada e mãe da Mari) também entende a escuta como uma ferramenta de construção de vínculo:
“Acho que o que mais define meu jeito de ser mãe é o diálogo. Eu tento muito ouvir minha filha, validar o que ela sente e criar um ambiente onde ela se sinta segura para ser quem é. Quero que ela cresça sabendo que pode conversar comigo sobre qualquer coisa.”
“Tive minha filha aos 18 anos e acredito que isso me trouxe mais consciência sobre o quanto ser mãe exige presença emocional além dos cuidados do dia a dia.”
Mesmo assim, ela reflete sobre o próprio papel.
“Tenho uma grande rede de apoio: meu marido e minha família. Ainda assim, considero um desafio equilibrar trabalho, rotina e maternidade. O tempo é tão precioso e, às vezes, penso que posso perder a conexão com ela. É coisa de mãe?”
Sua fala mostra como a maternidade, mesmo quando existe rede de apoio, parceria e presença familiar, continua sendo atravessada por inseguranças, aprendizado e pela tentativa constante de conexão.
Quando a maternidade também transforma quem materna
Existe uma ideia de que questionar modelos e rever certezas pertence apenas às gerações mais novas. Mas Celene (63 anos, mãe de um filho LGBTQIAP+) mostra que esse movimento também pode acontecer em outras fases da vida, através da escuta, do vínculo e da disposição para continuar aprendendo.
Ao falar sobre a relação com o filho, ela descreve de forma muito sensível como a maternidade também pode ser um espaço de transformação pessoal.
“Meu filho me ensina a ver o mundo através dos olhos dele. Não é fácil perceber que ainda carrego ideias equivocadas, mas é libertador continuar aprendendo mesmo aos 63 anos.”
Na sua fala, maternar não aparece como um lugar de perfeição, mas como uma construção permanente.
“O que mais marcou minha forma de maternar é procurar ser uma mãe melhor a cada dia. Escutar, acolher e entender um mundo que não conhecia.”
Quando pensamos a maternidade sob a ótica da Psicologia Social e do Construcionismo Social, mães não existem separadas do mundo. Elas também são atravessadas por cultura, geração, medos, aprendizados e pelas estruturas sociais em que cresceram.
Maternidade solo é completa
E, assim como Celene questiona certezas construídas ao longo da vida, Beatriz (57 anos, mãe solo) também rompe modelos, mas a partir de outro lugar: o da afirmação da própria experiência materna.
Beatriz engravidou aos 37 anos, depois de anos imaginando se conseguiria viver a maternidade.
“Sempre quis ser mãe. Meu filho veio quando eu já estava quase perdendo as esperanças.”
Sua fala revela uma maternidade marcada pela maturidade, pela consciência e pelo desejo profundo de formar alguém sensível ao mundo.
“Me comprometi a oferecer amor, amparo e orientação para formar alguém sensível, digno e solidário.”
Ao falar sobre a maternidade solo, ela também questiona o uso do termo “pãe”, expressão popularizada para definir mães que assumem sozinhas funções historicamente associadas aos pais.
“Não aceito ser chamada de ‘pãe’. Sempre fui mãe.”
Na sua visão, ser mãe abarca cuidado, força, presença, responsabilidade e construção de vínculo. Sua fala não nega a ausência de apoio ou os desafios da maternidade solo, mas reafirma que sua experiência não precisa ser renomeada para ser reconhecida em sua potência.
Quando ouvir ganha outras formas
Falamos muito sobre ouvir e aprender. E Fernanda (40 anos, mãe do Bê, adolescente atípico) mostra que, na experiência dela, ouvir ganha outras formas.
“O Bernardo é um menino extremamente carinhoso e esperto, mas que se expressa sem palavras. Por isso, o maternar de Fernanda é feito de silêncios preenchidos, de interpretação e de uma conexão que vai além da fala.”
Na maternidade atípica, pequenas conquistas ganham proporções imensas. O que para algumas famílias pode parecer simples, para outras representa anos de espera, dedicação e persistência. Ainda assim, Fernanda não coloca sua maternidade apenas no lugar da sobrecarga. O centro da sua fala continua sendo o vínculo.
“O que mais marca o meu jeito de ser mãe é a forma como me comunico com ele, descubro o que ele gosta de fazer e, principalmente, respeito o tempo e o jeito dele. O desafio é real e, muitas vezes, cansativo: a logística das terapias, a preocupação com a mobilidade e o peso de um diagnóstico que exige que eu seja ‘leoa’ o tempo todo. Mas a delícia é o que me sustenta. É o toque carinhoso do Be, a paz de saber que ele está bem e a realização de ver aquele sonho antigo de ser mãe personificado em um menino tão incrível.”
Sua fala amplia a própria ideia de escuta e comunicação. Porque ouvir nem sempre acontece através das palavras. Às vezes, acontece na observação, na sensibilidade, no respeito ao tempo do outro e na construção de uma conexão que não depende apenas da fala para existir.
O amor também muda de forma com o tempo
Existe uma transformação silenciosa que acontece com o tempo. Porque, para muitas mulheres, a maternidade não deixa de existir quando os filhos crescem. Ela apenas muda de forma.
Teresinha (Indígena, 73 anos) olha para a própria trajetória com a sensação de quem construiu vínculo, presença e autonomia ao mesmo tempo.
“Tenho dois filhos adultos, casados e com suas vidas bem resolvidas. Sempre fui uma mãe protetora, tipo mãe loba quando necessário, mas nunca fui melosa. Exigi responsabilidade dos meus filhos e que fossem justos, apoiei em todos os sentidos, mas corrigi quando necessário.”
Sua fala traz uma maternidade atravessada pelo equilíbrio entre acolhimento e limite, cuidado e incentivo à independência.
“O que marcou foi ensinar para a vida, para caminhar com as próprias pernas.”
Ao olhar para os filhos já adultos, Teresinha descreve algo que aparece pouco quando falamos sobre maternidade: o momento em que o cuidado também se transforma em confiança.
“Hoje usufruímos da proteção deles e auxiliamos com os netos, quando solicitado.”
Existe algo potente quando ela fala sobre “missão cumprida”, não como perfeição, mas como a percepção de que os vínculos construídos ao longo da vida permaneceram.
“Olhar para trás, lembrar dos sacrifícios e constatar que valeram a pena, pois estão fortes e seguem seus caminhos. Desfruto hoje de uma sensação de missão cumprida e alívio por ter conseguido ser suporte para meus filhos.”
Sua fala ajuda a lembrar que a maternidade também pode ser sobre preparar alguém para existir no mundo com autonomia, enquanto o amor encontra novas formas de permanecer.
E quando a escolha é não maternar?
Finalizando, outra provovação sobre maternidade vem justamente de quem decidiu não ocupar esse lugar da forma esperada socialmente.
Jéssica (34 anos, mulher que decidiu não ser mãe) fala sobre dúvida, escolha e consciência.
“Eu sempre tive dúvidas. E acho que, quando a dúvida existe, é importante prestar atenção nela.”
Sua fala questiona uma expectativa social ainda muito presente: a ideia de que toda mulher, inevitavelmente, desejará a maternidade.
“No ano passado, depois de muito refletir, bati o martelo e decidi não ser mãe. E foi uma decisão.”
Mas o mais interessante é perceber que, ao recusar a maternidade tradicional, Jéssica não rejeita o cuidado. Pelo contrário.
“Eu tenho um instinto materno muito forte. Só entendi que ele se manifesta de outras formas.”
Ao falar sobre acolhimento, rede de apoio e presença emocional, ela amplia a própria ideia de maternar.
“Entendi que minha missão não é maternar um filho, mas sustentar afetos, oferecer suporte, ser rede de apoio e construir presença na vida das pessoas que amo.”
Para fechar, volto à pergunta: como você materna?
Como você pode ver, existem diversas formas de maternar. Tantas, que nem cabem neste artigo. E talvez o mais bonito esteja justamente nisso: na possibilidade de cada mulher construir sua maternidade a partir da sua própria história, dos seus limites, afetos e escolhas.
Independentemente da resposta, que ela venha acompanhada de orgulho. Orgulho da mulher e mãe que você é e da forma única que encontrou de expressar amor e cuidado.
Que possamos abraçar a diversidade das maternidades e ampliar o olhar sobre as diferentes formas de existir. Criar mais espaços de escuta, acolhimento e diálogo em meio a tantas vozes dizendo quem uma mulher deveria ser.
É justamente na possibilidade de se ouvir que cada mulher encontra sua própria forma de ser mãe, mulher e existir.
Sueli Marino
Psicóloga Clínica | CRP 06/31819
Profª. Dra. | Especialista em terapia de casal e família
Atendimento individual e de casal
Supervisão e intervisão clínica
