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A Terapia como construção social

A terapeuta ou o terapeuta é fruto do mundo em que vive. Carregamos histórias, gênero, orientação socioafetiva, raça, valores, crenças, atravessamentos culturais e sociais que influenciam a forma como compreendemos as relações. Não chegamos à clínica neutros, nem vazios.

Quando temos consciência de que também temos um viés, podemos sustentar encontros mais cuidadosos, menos normativos e mais abertos à construção conjunta de sentidos.

Para entender essa forma de olhar a clínica, precisamos antes de tudo mudar adotar uma curiosidade autorreflexiva. Em vez de pensar a terapia como um processo de correção de processos psicológicos defeituosos, somos convidados a enxergá-la como um espaço de construção da forma como alguém compreende o próprio eu e a sua relação com o mundo. E nós, enquanto terapeutas, podemos passar pelo mesmo processo.

Terapia é Encontro

A terapia deixa de ser um lugar de conserto e passa a ser um lugar de encontro. Um espaço onde histórias são revisitadas, sentidos são produzidos e novas formas de se reconhecer podem surgir, sempre a partir do momento de vida e da realidade em que as pessoas (terapeuta e cliente) estão inseridos.

O eu, nesse contexto, não é algo fixo, interno ou definitivo. Ele vai sendo construído ao longo da vida, nas relações, nas conversas e nos contextos que atravessam cada trajetória. A forma como nos percebemos está profundamente ligada à época em que vivemos, aos grupos dos quais fazemos parte, às interações que experimentamos e às narrativas sociais que circulam ao nosso redor.

Questões como gênero, raça, orientação sexual, classe social e pertencimento não são camadas externas da identidade, elas atravessam diretamente a maneira como o mundo é vivido e significado.

Compreender o “eu” é, inevitavelmente, compreender o mundo que o cerca. E compreender o mundo, impacta na compreensão do “eu”.

Terapia é co construção

Nesse sentido, a terapia se torna um processo de coconstrução. Nada do que acontece ali é produzido por uma pessoa só. Os sentidos que emergem  no diálogo da clínica nascem da relação entre terapeuta e pessoa atendida, da linguagem que se constrói no encontro e das histórias que ganham espaço para existir.

As perguntas que fazemos, as palavras que escolhemos ajudam a moldá-la. Conversar em terapia é também criar realidades possíveis sobre quem alguém é, sobre o que pode vir a ser e o mundo que constrói ao seu redor.

Isso nos coloca, enquanto terapeutas, em uma posição de profunda responsabilidade. Não estamos fora da relação, observando de maneira neutra. Participamos ativamente da construção dos sentidos que se tornam disponíveis naquele espaço. Por isso, a curiosidade auto reflexiva se torna tão importante para o terapeuta. Olhar para o outro, mas também para nós mesmos, para nossas crenças, valores e referências. Reconhecer que aquilo que legitimamos ou questionamos em sessão tem efeitos reais na vida das pessoas e impacta na contrução social.

Quando ampliamos esse olhar, percebemos que a clínica nunca acontece isolada do mundo social. Ela está atravessada por desigualdades, normas e discursos. A terapia pode tanto reforçar essas lógicas quanto abrir brechas para outras formas de existir. É aqui que o papel da terapeuta se amplia para além da escuta individual e se aproxima de um compromisso social.

Assumir a terapia como um processo de construção de realidades é reconhecer que cada conversa clínica é também um ato político no cotidiano. Não no sentido partidário, mas no compromisso com a dignidade, com o reconhecimento das diferenças e com a justiça social. Ao cocriarmos narrativas mais amplas, menos patologizantes e mais plurais, participamos da construção de mundos em que mais pessoas possam existir com menos sofrimento e mais possibilidades. Fazer clínica, a partir desse lugar, é também uma forma de ativismo silencioso e contínuo.

O papel da terapeuta como ativista social se revela na busca constante por justiça social, ao reconhecer que criamos realidades a partir da terapia.

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