Psicologia Clínica. Tudo que vem antes da técnica.
Na psicologia clínica, é comum passarmos anos estudando diferentes teorias, abordagens e técnicas. Buscamos novos conhecimentos porque desejamos oferecer um atendimento de qualidade e encontrar caminhos que ajudem as pessoas que chegam até nós.
Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar essa busca:
O que fazemos com todo esse conhecimento dentro do consultório?
Uma teoria nunca é apenas uma ferramenta. Ela influencia a forma como enxergamos a pessoa atendida, como compreendemos seu sofrimento, quais perguntas fazemos e quais caminhos consideramos possíveis.
Por isso, não basta conhecer uma técnica ou seguir corretamente suas etapas. É preciso refletir sobre aquilo que ela produz na relação terapêutica.
Que explicações essa prática oferece para o problema apresentado?
Que comportamentos ela considera normais ou inadequados?
Quais experiências são valorizadas?
Quais pessoas, histórias ou contextos podem estar sendo ignorados?
Essas perguntas fazem parte do que chamo de posicionamento crítico-reflexivo.
Nenhuma prática é neutra
Toda teoria nasce em determinado contexto histórico, social e cultural. Ela carrega valores, crenças e formas específicas de compreender o ser humano. Isso significa que nenhuma abordagem consegue explicar sozinha toda a complexidade de uma vida.
Quando uma terapeuta trata uma teoria como verdade absoluta, corre o risco de tentar encaixar a pessoa em uma explicação pronta. Em vez de escutar sua história, pode começar a interpretar suas experiências apenas a partir do que aprendeu previamente.
O problema não está em utilizar teorias ou técnicas. Elas são importantes e podem oferecer recursos valiosos. O cuidado está em não permitir que elas ocupem o lugar da própria pessoa na construção do sentido de sua experiência.
Na terapia, não estamos diante de alguém que precisa ser explicado por nós. Estamos diante de uma pessoa que conhece sua história, seus afetos, suas relações e os desafios que atravessam sua vida.
A terapeuta possui conhecimento sobre processos terapêuticos. A cliente possui conhecimento sobre sua própria experiência. O encontro entre essas duas perspectivas pode produzir novas compreensões, desde que exista espaço para o diálogo.
Colonialidade Terapêutica
Ao longo da história, povos colonizadores impuseram seus costumes, valores, crenças e modelos de vida a outros povos. O colonizador se colocava como aquele que sabia o que era melhor, enquanto ao colonizado restava obedecer, adaptar-se e agradecer. Embora a colonização pertença à história, sua lógica ainda aparece em muitas relações atuais. Ela se manifesta sempre que um grupo, uma instituição ou uma pessoa transforma seus próprios valores em uma medida universal para avaliar a vida dos outros.
Essa lógica também pode chegar ao consultório.
Isso acontece quando a profissional, apoiada em seu conhecimento técnico, acredita saber melhor do que a própria cliente o que sua experiência significa, qual é a origem de seu sofrimento ou como deveria viver.
Podemos chamar esse movimento de colonialidade terapêutica.
Ela aparece quando a pessoa:
- impõe seus valores pessoais como se fossem universais;
- ignora diferenças de raça, gênero, classe social, sexualidade, religião ou deficiência;
- individualiza sofrimentos que também possuem causas sociais;
- apresenta interpretações como verdades definitivas;
- patologiza formas de viver que não correspondem às expectativas sociais;
- ocupa uma posição de autoridade que silencia a experiência da pessoa atendida.
Mesmo práticas apresentadas como formas de ajuda podem se tornar opressivas quando não existe reflexão sobre seus efeitos.
O sofrimento não acontece fora do mundo
Muitas dificuldades que chegam à terapia não podem ser compreendidas apenas como problemas individuais.
Uma pessoa pode sentir medo, insegurança, tristeza ou esgotamento em razão de experiências de racismo, desigualdade social, violência de gênero, preconceito, falta de oportunidades ou exclusão.
Quando esses contextos são ignorados, existe o risco de transformar uma questão social em uma falha pessoal.
Uma mulher sobrecarregada pelas exigências relacionadas ao cuidado da casa e da família não está necessariamente sofrendo apenas por não saber se organizar.
Uma pessoa negra que vive em estado constante de alerta pode não estar enfrentando somente uma ansiedade individual, mas também os efeitos cotidianos do racismo.
Uma pessoa LGBTQIA+ pode experimentar angústias relacionadas não à sua identidade, mas à rejeição, à violência e à pressão social para que se adapte a determinado padrão.
Isso não significa que todas as dores tenham uma única origem social. Significa reconhecer que a vida emocional é complexa e está atravessada pelas relações, pela cultura, pela história e pelos lugares que ocupamos no mundo.
A pessoa precisa ampliar sua escuta para não responsabilizar individualmente alguém por um sofrimento que também é produzido socialmente.
Refletir criticamente é uma responsabilidade ética
O conhecimento técnico é importante, mas não substitui a capacidade de pensar criticamente.
Uma profissional pode dominar uma técnica, conhecer suas etapas e aplicá-la corretamente. Ainda assim, precisa se perguntar quais efeitos essa prática produz.
Para quem essa técnica foi criada?
Quais concepções de família, saúde e comportamento ela reproduz?
Como lida com as diferenças sociais?
Quem pode ser beneficiado por ela?
Quem pode ser excluído ou prejudicado?
Existe espaço para que a cliente discorde da interpretação apresentada?
A prática amplia possibilidades ou estabelece uma única verdade?
Pensar criticamente significa não executar uma intervenção de forma automática. Significa assumir responsabilidade pelas escolhas feitas e pelas consequências que elas podem provocar.
Também significa reconhecer que a pessoa participa ativamente do processo. Seus valores, sua história, suas crenças e seu lugar social não desaparecem quando ela entra no consultório.
Não existe neutralidade. Existe a possibilidade de reconhecer essas influências e cuidar para que elas não sejam impostas à pessoa atendida.
O posicionamento crítico-reflexivo na prática
O posicionamento crítico-reflexivo não é uma nova técnica terapêutica. É uma forma de estar presente no processo clínico.
Ele exige que a pessoa se questione continuamente:
Qual posição estou ocupando nesta conversa?
Estou escutando ou tentando convencer?
Estou construindo possibilidades ou impondo explicações?
Quais valores orientam minha interpretação?
Estou considerando o contexto social dessa pessoa?
Que relações de poder estão presentes aqui?
Minha prática inclui ou exclui?
A cliente possui espaço para avaliar, questionar ou discordar do meu trabalho?
Nem sempre conseguiremos ocupar o lugar que desejamos.
Em alguns momentos, podemos nos colocar como defensoras, juízas ou orientadoras. Podemos nos sentir tão mobilizadas pela história apresentada que passamos a conduzir a conversa a partir de nossas próprias emoções.
O mais importante é perceber esses movimentos e buscar um reposicionamento.
Refletir não significa paralisar o trabalho terapêutico. Significa tornar nossas escolhas mais conscientes, responsáveis e coerentes.
Em vez de procurar respostas definitivas, podemos construir perguntas melhores.
Uma prática clínica inclusiva não nasce da busca por uma teoria perfeita.
Nenhuma abordagem dará conta de todas as histórias, identidades, relações e formas de sofrimento. Sempre haverá algo a aprender, rever ou questionar.
O posicionamento crítico-reflexivo nos ajuda a conviver com essa incompletude.
Em vez de procurar respostas definitivas, podemos construir perguntas melhores.
Em vez de ocupar o lugar de quem sabe tudo sobre a vida da outra pessoa, podemos participar de uma conversa em que novos sentidos sejam produzidos.
Em vez de utilizar uma técnica apenas porque ela promete resultados, podemos observar seus efeitos éticos, políticos e relacionais.
Antes de escolher uma teoria ou uma intervenção, precisamos pensar sobre o lugar que desejamos ocupar diante de quem confia a nós sua história.
Porque toda prática terapêutica também é uma escolha política.
Ela pode reforçar normas, desigualdades e silenciamentos. Mas também pode criar espaços de escuta, reconhecimento, autonomia e transformação.
Este texto foi elaborado com base no Capítulo 13, de minha autoria, chamado “Um convite construcionista social: o posicionamento crítico-reflexivo como recurso terapêutico para o uso de teorias e técnicas na prática clínica”, do livro Construcionismo Social, Colaboração e Diálogo: Rizomas de Teorias e Práticas Inovadoras em Território Brasileiro, organizado por Marilene A. Grandesso e Valéria Nicolau Paschoal (Editora CRV).
Profª DRª. Sueli Marino
Psicóloga Clínica
CRP 06/318119
